continuando…
Senta em um banco no fundo do veículo, do lado da janela, abre seu jornal e começa a ler as notícias. A mesma coisa que aconteceu na televisão, repete-se agora. No primeiro caderno nada de novidade, pai que matou a filha, presidente envolvido em mais um caso de corrupção, sequestro acaba em morte, morro é invadido por policiais, desemprego aumenta e etc. Parte para o caderno de cultura e lazer, não acha nada de interessante em teatros, no cinema um filme que gostaria de assistir também em cartaz, mas a falta de dinheiro não o permite realizar suas vontades. De novo a voz de sua mãe retorna no pensamento, fica puto da vida e resolve fechar o jornal e tirar um cochilo enquanto não chega a hora de descer do ônibus.
Esse breve descanso dá tempo para sonhar com o Carnegie Hall (templo do Jazz americano) lotado! Ele tocando um sax tenor, seguido por Thelonious no piano, Chet no trompete (rima não proposital!), Ray Brown no Baixo e o grande Buddy Rich na Bateria. Os dois últimos acompanharam o fantástico Charlie Paker em um memorável concerto no mesmo local no ano de 1949. Pode ser essa a inspiração para o sonho, mesmo ele escutando Milles, e esse não sendo citado no sonho. Ter nascido na “Época de ouro”, essa realmente era a maior vontade de Eduardo. Vivenciar a explosão da maior invenção do homem, o Jazz! Poder assistir aos shows de seus maiores heróis. E quem sabe, até se arriscar a tocar.
Por sorte, consegue acordar a tempo de não perder o ponto onde iria descer. Mas essa pestana foi revigorante para encarar a quarta feira de um dia nublado. Até os pensamentos sobre sua mãe foram embora, e ele agora se sentia bem! Chegando ao local de trabalho (uma espelunca por assim dizer, mas que tem um certo charme), Eduardo abre os cadeados, levanta a porta de ferro e entra na loja.
Ascende algumas luzes, já que a loja é um pouco escura, coloca no toca disco “Jazz at the filarmônica” de Paker e acomoda-se atrás do balcão, para retomar a leitura do jornal.
O sino que fica trás da porta, toca. Ele serve pra avisar quando alguém adentra ao recinto. O relógio marca dez e meia da manhã. Era Murilo, um dos poucos amigos que Eduardo tem. Também obcecado por jazz, tem uma banda que toca em um bar em São Paulo, uma vez por semana. De vez em quando, Eduardo aparece para dar uma “canja” com seu saxofone nos shows de seu amigo. Mas é bastante relutante quanto a isso, pois tem um enorme pavor de multidão. Murilo é um trompetista esforçado, e sua banda flerta bastante com o Jazz moderno, coisa que Eduardo abomina. Ele gosta de jazz tradicional do fim dos anos quarenta até os anos sessenta. Murilo é um rapaz negro, de mais ou menos, um metro e oitenta de altura, com o visual de um músico de reggae, dreadlocks, barba grande. Cumprimenta Eduardo com um aperto de mão.
- Fala meu jovem rapaz! Que aparência horrível!!! Acredito que seu apartamento deve estar do mesmo jeito que você: PÉSSIMO!!!