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O engraçado do comentário do Murilo, era que ele não poderia ser chamado de cara bonito, mas mesmo assim ele se sentia o galã! Talvez porque existem garotas e mulheres que o acham atraente, mesmo ele parecendo que tem um vilarejo dos Smurfs na cabeça! Mas tudo bem! Eduardo gostava de conversar com ele, justamente por causa da sua sinceridade extremista, algo muito raro de se encontrar em alguém hoje em dia. Talvez porque a maioria das pessoas não estão preparadas para ouvirem a verdade nua crua, ou por não gostarem de receber críticas que vão fazer elas crescerem na vida.
- Cara, se a tua casa tiver a mesma aparência que a sua, você mora nos descombros de Nagasaki logo após o bombardeio! - retrucou Eduardo.
Murilo deu uma longa risada sarcástica, acomodou-se em uma banqueta do lado do balcão do caixa onde Eduardo se encontrava, ascendeu um cigarro e ficou com cara de paisagem por alguns minutos só escutando a trilha sonora do dia na loja. Deu uma longa tragada e começou a falar, ao mesmo tempo em que soltava a fumaça:
- As vezes eu me pergunto: Como pode uma pessoa conseguir fazer uma coisa tão perfeita, como o Paker fez? Não dá para entender, e isso coloca uma pressão enorme nas costas de quem é músico, porque você vai sempre querer fazer coisas boas também!
- E isso não é bom? O perfeccionismo moderado não faz mal a ninguém! Pior seria você tocar por tocar, sem inspiração. - Diz Eduardo.
- Eu sei disso cara! É uma faca de dois gumes! Tanto serve pra você buscar sempre o melhor, quanto pra colocar uma pressão a mais na sua vida e no que faz!
- Mas pressão você vai ter a vida inteira, meu amigo! Vai de você saber lidar com isso!
Ela continuou a fumar seu cigarro, com tragadas longas, quase matando o cigarro de uma só vez. Sinal mais que evidente de nervosismo. Murilo é daquelas pessoas que não sabem e não funcionam sobre pressão. Isso em todas as áreas de sua vida. Tanto que resolveu abandonar o seu emprego de barman em um Pub no centro de São Paulo. O que para Eduardo foi muito ruim, pois além de gostar e muito do lugar, ainda contava com as rodadas gratuitas de cerveja. O lugar é um típico Pub inglês. O dono é um nativo da Terra da rainha Elisabeth, mas se apaixonou por uma brasileira e resolveu se mudar para o Brasil. E para matar um pouco a saudade do País onde morava, e também como uma forma de sustento, resolveu abrir uma cópia dos tradicionais bares ingleses. A decoração é feita por várias flâmulas do time de coração, o Liverpool. Quando Murilo resolveu pedir a sua demissão, ele convenceu Edward (dono do Pub) a abrir um espaço para se apresentar com a sua banda. Além de servir a melhor cerveja do mundo, a Guinnes, o lugar é bem calmo, sem a tradicional agitação de baladas que os jovens costumam freqüentar. Depois do expediente, Eduardo costuma ir pra lá e beber até chegar em casa e “benzer” a fechadura antes de conseguir acertar a chave no lugar certo.
O telefone toca, era Roberto, dono da loja. Ele sempre liga e pergunta se Eduardo está precisando de alguma coisa. O que na maioria das vezes não acontece, já que a loja de disco tem seu acervo graças a trocas e compras de discos dos próprios donos. Algumas pessoas acham que o final da pirataria está em voltar a fabricar vinil. O que é uma grande besteira, sendo que essa “corporação” é muito organizada, e com certeza iriam inventar algo para burlar as regras pré-ditadas pelas grandes gravadoras. E mesmo antes do cd entrar no comércio, existia sim disco pirata também. Na sua grande maioria, gravações muito mal feitas de shows.
- Tem certeza mesmo que não precisa de nada? Nem de produtos de limpeza? – Pergunta Roberto.
- Tenho sim Roberto, fica tranqüilo que tá tudo sobre controle!
- Esse é meu Medo Edu, quando você fala que está tudo sobre controle! Hahaha