Friday, June 27, 2008

(continuando…)

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O engraçado do comentário do Murilo, era que ele não poderia ser chamado de cara bonito, mas mesmo assim ele se sentia o galã! Talvez porque existem garotas e mulheres que o acham atraente, mesmo ele parecendo que tem um vilarejo dos Smurfs na cabeça! Mas tudo bem! Eduardo gostava de conversar com ele, justamente por causa da sua sinceridade extremista, algo muito raro de se encontrar em alguém hoje em dia. Talvez porque a maioria das pessoas não estão preparadas para ouvirem a verdade nua crua, ou por não gostarem de receber críticas que vão fazer elas crescerem na vida.

-         Cara, se a tua casa tiver a mesma aparência que a sua, você mora nos descombros de Nagasaki logo após o bombardeio! - retrucou Eduardo.

 

Murilo deu uma longa risada sarcástica, acomodou-se em uma banqueta do lado do balcão do caixa onde Eduardo se encontrava, ascendeu um cigarro e ficou com cara de paisagem por alguns minutos só escutando a trilha sonora do dia na loja. Deu uma longa tragada e começou a falar, ao mesmo tempo em que soltava a fumaça:

-         As vezes eu me pergunto: Como pode uma pessoa conseguir fazer uma coisa tão  perfeita, como o Paker fez? Não dá para entender, e isso coloca uma pressão enorme nas costas de quem é músico, porque você vai sempre querer fazer coisas boas também!

     -     E isso não é bom? O perfeccionismo moderado não faz mal a ninguém! Pior seria você tocar por tocar, sem inspiração. - Diz Eduardo.

     -     Eu sei disso cara! É uma faca de dois gumes! Tanto serve pra você buscar sempre o melhor, quanto pra colocar uma pressão a mais na sua vida e no que faz!

-         Mas pressão você vai ter a vida inteira, meu amigo! Vai de você saber lidar com isso!

 

Ela continuou a fumar seu cigarro, com tragadas longas, quase matando o cigarro de uma só vez. Sinal mais que evidente de nervosismo. Murilo é daquelas pessoas que não sabem e não funcionam sobre pressão. Isso em todas as áreas de sua vida. Tanto que resolveu abandonar o seu emprego de barman em um Pub no centro de São Paulo. O que para Eduardo foi muito ruim, pois além de gostar e muito do lugar, ainda contava com as rodadas gratuitas de cerveja. O lugar é um típico Pub inglês. O dono é um nativo da Terra da rainha Elisabeth, mas se apaixonou por uma brasileira e resolveu se mudar para o Brasil. E para matar um pouco a saudade do País onde morava, e também como uma forma de sustento, resolveu abrir uma cópia dos tradicionais bares ingleses. A decoração é feita por várias flâmulas do time de coração, o Liverpool. Quando Murilo resolveu pedir a sua demissão, ele convenceu Edward (dono do Pub) a abrir um espaço para se apresentar com a sua banda. Além de servir a melhor cerveja do mundo, a Guinnes, o lugar é bem calmo, sem a tradicional agitação de baladas que os jovens costumam freqüentar. Depois do expediente, Eduardo costuma ir pra lá e beber até chegar em casa e “benzer” a fechadura antes de conseguir acertar a chave no lugar certo.

O telefone toca, era Roberto, dono da loja. Ele sempre liga e pergunta se Eduardo está precisando de alguma coisa. O que na maioria das vezes não acontece, já que a loja de disco tem seu acervo graças a trocas e compras de discos dos próprios donos. Algumas pessoas acham que o final da pirataria está em voltar  a fabricar vinil. O que é uma grande besteira, sendo que essa “corporação” é muito organizada, e com certeza iriam inventar algo para burlar as regras pré-ditadas pelas grandes gravadoras. E mesmo antes do cd entrar no comércio, existia sim disco pirata também. Na sua grande maioria, gravações muito mal feitas de shows.

      -     Tem certeza mesmo que não precisa de nada? Nem de produtos de limpeza? – Pergunta Roberto.

-         Tenho sim Roberto, fica tranqüilo que tá tudo sobre controle!

-         Esse é meu Medo Edu, quando você fala que está tudo sobre controle! Hahaha

 

Posted by Johnny in 06:51:44 | Permalink | No Comments »

Tuesday, April 29, 2008

continuando…

Senta em um banco no fundo do veículo, do lado da janela, abre seu jornal e começa a ler as notícias. A mesma coisa que aconteceu na televisão, repete-se agora. No primeiro caderno nada de novidade, pai que matou a filha, presidente envolvido em mais um caso de corrupção, sequestro acaba em morte, morro é invadido por policiais, desemprego aumenta e etc. Parte para o caderno de cultura e lazer, não acha nada de interessante em teatros, no cinema um filme que gostaria de assistir também em cartaz, mas a falta de dinheiro não o permite realizar suas vontades. De novo a voz de sua mãe retorna no pensamento, fica puto da vida e resolve fechar o jornal e tirar um cochilo enquanto não chega a hora de descer do ônibus.

Esse breve descanso dá tempo para sonhar com o Carnegie Hall (templo do Jazz americano) lotado! Ele tocando um sax tenor, seguido por Thelonious no piano, Chet no trompete (rima não proposital!), Ray Brown no Baixo e o grande Buddy Rich na Bateria. Os dois últimos acompanharam o fantástico Charlie Paker em um memorável concerto no mesmo local no ano de 1949. Pode ser essa a inspiração para o sonho, mesmo ele escutando Milles, e esse não sendo citado no sonho. Ter nascido na “Época de ouro”, essa realmente era a maior vontade de Eduardo. Vivenciar a explosão da maior invenção do homem, o Jazz! Poder assistir aos shows de seus maiores heróis. E quem sabe, até se arriscar a tocar.

Por sorte, consegue acordar a tempo de não perder o ponto onde iria descer. Mas essa pestana foi revigorante para encarar a quarta feira de um dia nublado. Até os pensamentos sobre sua mãe foram embora, e ele agora se sentia bem! Chegando ao local de trabalho (uma espelunca por assim dizer, mas que tem um certo charme), Eduardo abre os cadeados, levanta a porta de ferro e entra na loja.

Ascende algumas luzes, já que a loja é um pouco escura, coloca no toca disco “Jazz at the filarmônica” de Paker e acomoda-se atrás do balcão, para retomar a leitura do jornal.

O sino que fica trás da porta, toca. Ele serve pra avisar quando alguém adentra ao recinto. O relógio marca dez e meia da manhã. Era Murilo, um dos poucos amigos que Eduardo tem. Também obcecado por jazz, tem uma banda que toca em um bar em São Paulo, uma vez por semana. De vez em quando, Eduardo aparece para dar uma “canja” com seu saxofone nos shows de seu amigo. Mas é bastante relutante quanto a isso, pois tem um enorme pavor de multidão. Murilo é um trompetista esforçado, e sua banda flerta bastante com o Jazz moderno, coisa que Eduardo abomina. Ele gosta de jazz tradicional do fim dos anos quarenta até os anos sessenta. Murilo é um rapaz negro, de mais ou menos, um metro e oitenta de altura, com o visual de um músico de reggae, dreadlocks, barba grande. Cumprimenta Eduardo com um aperto de mão.

- Fala meu jovem rapaz! Que aparência horrível!!! Acredito que seu apartamento deve estar do mesmo jeito que você: PÉSSIMO!!!

Posted by Johnny in 23:20:48 | Permalink | Comments (6)

Monday, April 28, 2008

Simples Assim!

 

1º Capítulo

Toda vez pela manhã é a mesma rotina, colocar o relógio pra despertar vinte minutos antes do horário que irá levantar realmente para poder despertar devagar, sem a loucura de acordar correndo e fazendo tudo as pressas! E quando for o horário de levantar, sentar na beirada da cama, esfregar o rosto, dar uma bela bocejada e ai sim, começar o dia!

Eduardo segue ainda cambaleando para o banheiro, vê sua imagem no espelho e pensa:

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    Nossa! Não é a toa que estou solteiro ainda! Como uma mulher vai conseguir acordar todos os dias com um monstro como eu do lado dela?

     

Abre a torneira e deixa cair bastante água em suas mãos, levando um punhado de encontro ao rosto para ajudar o processo de despertar. Eduardo não faz parte dessa “seita” que acredita que um banho de manhã ajuda no processo de estímulo para enfrentar o dia. Para ele o banho serve pra relaxar e é bom antes de dormir! Mas um bom desodorante de manhã é sempre bem vindo para não afastar as pessoas de perto dele!

Feito todo o processo de higienização pessoal, parte para a cozinha para o alimento sagrado. Café preto e pão com manteiga, e quando tem, um pedaço de bolo. Fica meio desanimado com a bagunça que encontra por lá, várias garrafas de cervejas, vinhos, copos sujos…

O que indica que a noite passada foi de bebedeira total e logo entende o por quê da dor de cabeça! Quem sabe o desânimo que dá quando se está com ressaca vai entender que ele não faz o mínimo esforço para limpar e arrumar nada. Talvez mais tarde! Ele pega apenas uma xícara para por o café, procura uma faca limpa para cortar e passar a manteiga no pão. Leva tudo para a sala para continuar com a rotina, agora tomando café de manhã assistindo televisão, para poder ficar por dentro do que anda acontecendo com o mundo. Mas os telejornais são todos iguais, principalmente se tratando de Brasil, onde só se falam de violência, corrupção e outras coisas mais que caracteriza esse País como terceiro mundo! Então, nada melhor do que assistir desenhos animados. Logo vem a voz de sua mãe na cabeça falando:

  •  

    Quando é que você vai se portar como uma pessoa de sua idade? Olha as roupas que usa? E ainda assiste desenhos de criança! Desse jeito não tem mulher que vá querer casar com você!

     

Fica mais desanimado ainda! Esse era um grande problema para Eduardo, encarar que os anos passaram, e que tem milhões de responsabilidade. Isso já foi motivo para muitas noites mal dormidas. Talvez não só pra ele, mas para todas as pessoas da faixa etária que Eduardo se encontra, trinta anos! O maior passo para o amadurecimento que ele deu foi em sair da casa da mãe e morar sozinho. Mas mesmo assim, quando a grana aperta, ele sempre pede socorro pra a sua progenitora. E ai vem todo esse sermão que ele lembrou enquanto assistia desenho.

Após o café, Eduardo pega a carteira em cima da cômoda da televisão, óculos escuros, o maço de cigarro com o isqueiro, as chaves do apartamento e saí para o trabalho. A falta de ânimo fica evidentemente estampada no rosto dele, os vizinhos acham que ele sofre de depressão, mas na realidade não é nada disso, ele só não é o tipo de cara que sai de casa e dá bom dia para os passarinhos! Na verdade, Eduardo é um cara extremamente ranzinza. Apesar da aparência jovem, poderia se dizer que ele parece um senhor de 60 anos que acha que a ditadura foi o melhor momento para o País e que só tá essa zona porque os militares foram derrubados do poder! Não que ele pense assim, mas é só para se ter uma idéia de como é o tipo do rapaz.

Caminha até a banca de jornal perto do ponto onde pega o ônibus para ir ao trabalho, compra o jornal de todos os dia e fica se perguntando por que ainda não fez assinatura, já que gastaria menos dinheiro e poderia ler enquanto toma café. Fica de pé no ponto esperando a condução e involuntariamente escuta a conversa de duas mulheres que discutem o capítulo de ontem da novela das oito. Por alguma razão dá uma leve risada, e não entende como as pessoas se iludem com esses tipos de coisas. Sente vontade de comentar algo, mas pensa melhor e prefere evitar confusão!


Não demora muito para o ônibus chegar, e no horário que ele pega, não é tão ruim, dá até para ir sentado. Coloca os fones nos ouvidos e vai escutando Milles Davis. Eduardo é muito fã de Jazz, e trabalha em uma loja de discos, onde , na maioria das vezes, só aparecem pessoas de bom gosto. Ele tem um grande acervo pessoal de vinil em casa, onde se encontra uma coleção bem eclética, mas que é formado basicamente por “bambas” do Jazz: Milles, Thelonius Monk, Chet Baker, Count Basie e por ai vai. Outro motivo para brigas com sua mãe, ela diz que loja de disco não dá dinheiro nenhum e que ele deveria fazer uma faculdade de medicina, ou direito. Mas Eduardo se fosse fazer alguma coisa, gostaria de ser jornalista ou cursar Letras, já que adora escrever.

 

 

(CONTINUA…)

Posted by Johnny in 22:18:31 | Permalink | Comments (3)